Telas - Narcísio
Narcísio tinha um lago.
O homem de hoje tem uma tela.
Um via o rosto na água parada.
O outro vê o seu em 60 frames por segundo.
O primeiro se perdeu no reflexo,
porque não tinha pra onde olhar.
O segundo se perde no filtro,
no ângulo certo, na luz ideal.
O lago pedia silêncio.
O celular cobra notificação.
Aquele morria de amor por si.
Este morre de medo da solidão.
Narcísio afogou no espelho d’água.
O outro se afoga no feed sem fim.
Rola, rola, rola...
buscando em si um “si” que agrade a si.
A diferença é só o vidro.
O de um era água.
O do outro é Gorilla Glass.
A sede é a mesma:
ser visto. Ser bonito. Existir.
E a pergunta continua boiando:
ele está se conhecendo
ou só se curtindo?
Ambos vão morrendo...
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Autor:
GINO (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 4 de julho de 2026 10:17
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 4
- Usuários favoritos deste poema: Rodrigo Melo

Offline)
Comentários1
Profundíssima reflexão. Importante.
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