Telas - Narcísio
Narcísio tinha um lago.
O homem de hoje tem uma tela.
Um via o rosto na água parada.
O outro vê o seu em 60 frames por segundo.
O primeiro se perdeu no reflexo,
porque não tinha pra onde olhar.
O segundo se perde no filtro,
no ângulo certo, na luz ideal.
O lago pedia silêncio.
O celular cobra notificação.
Aquele morria de amor por si.
Este morre de medo da solidão.
Narcísio afogou no espelho d’água.
O outro se afoga no feed sem fim.
Rola, rola, rola...
buscando em si um “si” que agrade a si.
A diferença é só o vidro.
O de um era água.
O do outro é Gorilla Glass.
A sede é a mesma:
ser visto. Ser bonito. Existir.
E a pergunta continua boiando:
ele está se conhecendo
ou só se curtindo?
Ambos vão morrendo...