Sobrou-me o amor que já vivi.
Não como lembrança.
Lembranças ocupam o passado.
Isto ocupa a estrutura.
Sobrou como uma amputação
que insiste em doer
num membro que a realidade já confiscou.
Compreendo agora
que o amor nunca prometeu permanência.
Prometeu apenas distração.
Durante alguns anos
a consciência foi suspensa,
e tive o privilégio de acreditar
que a existência possuía um centro.
Não possuía.
O amor apenas colocou cortinas
na janela do abismo.
Quando partiu,
não levou felicidade alguma.
Levou o disfarce.
Hoje vejo a vida
com a obscenidade de quem enxerga
o mecanismo por trás da ilusão.
Não existe destino.
Não existe recompensa.
Não existe metade esperando a outra.
Existe a Vontade,
essa usina indiferente
que fabrica desejos
para manter cadáveres em movimento.
Chamávamos isso de esperança.
O erro foi confundir intensidade
com verdade.
Toda paixão é um excelente falsificador.
Ela adultera o tempo,
corrige imperfeições da memória,
suborna a razão
e convence o sujeito
de que encontrou aquilo
que nasceu estruturalmente incapaz de encontrar.
Não perdi uma pessoa.
Perdi o único delírio
que conseguia silenciar
o ruído permanente da falta.
Lacan tinha razão.
Não desejamos o outro.
Desejamos o intervalo
em que o outro consegue impedir
que percebamos
que nada jamais bastará.
É por isso que o luto demora.
Não enterramos pessoas.
Enterramos versões de nós
que dependiam da mentira.
O resto da vida
é aprender a respirar
sem anestesia.
Aceitar que talvez
o melhor não tenha acabado.
Talvez ele jamais tenha existido.
Talvez tenha sido apenas
o breve instante
em que a consciência cochilou
e acordou tarde demais.
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Autor:
Kauane de Moraes (
Offline) - Publicado: 1 de julho de 2026 14:37
- Categoria: Amor
- Visualizações: 4
- Usuários favoritos deste poema: Rogério

Offline)
Comentários1
Lindo poema!!!
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