Kauane de Moraes

O acidente de ter sido feliz

Sobrou-me o amor que já vivi.

 

Não como lembrança.

Lembranças ocupam o passado.

Isto ocupa a estrutura.

 

Sobrou como uma amputação

que insiste em doer

num membro que a realidade já confiscou.

 

Compreendo agora

que o amor nunca prometeu permanência.

Prometeu apenas distração.

 

Durante alguns anos

a consciência foi suspensa,

e tive o privilégio de acreditar

que a existência possuía um centro.

 

Não possuía.

 

O amor apenas colocou cortinas

na janela do abismo.

 

Quando partiu,

não levou felicidade alguma.

 

Levou o disfarce.

 

Hoje vejo a vida

com a obscenidade de quem enxerga

o mecanismo por trás da ilusão.

 

Não existe destino.

Não existe recompensa.

Não existe metade esperando a outra.

 

Existe a Vontade,

essa usina indiferente

que fabrica desejos

para manter cadáveres em movimento.

 

Chamávamos isso de esperança.

 

O erro foi confundir intensidade

com verdade.

 

Toda paixão é um excelente falsificador.

 

Ela adultera o tempo,

corrige imperfeições da memória,

suborna a razão

e convence o sujeito

de que encontrou aquilo

que nasceu estruturalmente incapaz de encontrar.

 

Não perdi uma pessoa.

 

Perdi o único delírio

que conseguia silenciar

o ruído permanente da falta.

 

Lacan tinha razão.

 

Não desejamos o outro.

 

Desejamos o intervalo

em que o outro consegue impedir

que percebamos

que nada jamais bastará.

 

É por isso que o luto demora.

 

Não enterramos pessoas.

 

Enterramos versões de nós

que dependiam da mentira.

 

O resto da vida

é aprender a respirar

sem anestesia.

 

Aceitar que talvez

o melhor não tenha acabado.

 

Talvez ele jamais tenha existido.

 

Talvez tenha sido apenas

o breve instante

em que a consciência cochilou

e acordou tarde demais.