Espelho de Prata

Ayalah Verônica Berg

 

alma reta
nada vela.
bebo o meu segredo
em vinho lento.
 
ao diabo ofereço
a língua dúbia,
ele me sela os lábios
só com sede.
 
minha outra
é alfinete
na carne fria.
à noite alinhava
corpo e queda.
tem dois gumes
a sombra
que me guia —
sabe o desejo
rente ao fim.
 
que a loucura venha
ladra da aurora.
e os demônios
que em mim falarem
se percam
na prata do vidro.
 
e a escuridão
que eu nutro
com teu ar distante
te cubra os olhos
numa ciência exata —
sede negra
de um corte lento.
 
que a última voz
seja a marca suja
de um gesto
já sem volta.
 
 
Espelho de Prata 
  de Ayalah Verônica Berg 

 

  • Autor: Ayalah Berg (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 25 de junho de 2026 13:10
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 13
  • Usuários favoritos deste poema: Apegaua
Comentários +

Comentários2

  • Versos Discretos

    Combina imagens sombrias e delicadas com uma musicalidade contida que prende o leitor do início ao fim. Cada verso carrega múltiplas camadas de sentido, criando uma atmosfera de desejo, loucura e autoconfronto. Gostei especialmente da forma como a sede aparece como metáfora recorrente, costurando o texto com grande coerência simbólica. Há uma beleza inquietante nas contradições que você constrói, entre sombra e lucidez, queda e entrega. Um poema intenso, maduro e marcado por uma identidade poética muito própria.

    • Ayalah Verônica Berg

      Escrevi o poema "Espelho de Prata" em meados de 2025, época em que me apaixonei pelos poetas malditos... foi quando a Verônica — essa minha outra que odeia tudo e todos e que acabou dando forma à minha poesia decadente... minhas poesias recentes, mais camusianas, ainda carregam a forte influência de Baudelaire e Rimbau. No meu blog e no Substack tenho publicado minha poesia recente. Os links estão na bio... ah, amei teu comentário. Obrigada por me ler.

    • Francisco Queiroz

      Ayalah, interessante de mais, é um colocar fogo no braseiro e ir alimentado consigo mesmo e ficar admirado com brilho enquanto se é consumido, até se apagar...

      Sempre muito bom te ler

      Abraço fraterno!



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