Sonhei que a Terra me fez uma pergunta.
Não uma pergunta de montanhas,
nem de oceanos,
nem dessas que os rios carregam até o mar.
Era uma pergunta antiga,
gasta pelo tempo:
"Por quê?"
Por que o animal que aprendeu
a nomear as constelações
não reconhece mais as próprias raízes?
Por que aquele que decifrou o fogo,
dividiu o átomo,
fotografou galáxias distantes
e mediu a idade das estrelas
continua incapaz
de compreender o valor de uma floresta viva?
Eu não soube responder.
Vi cidades brilhando como joias
sobre a pele da noite,
enquanto rios adoeciam em silêncio.
Vi homens construindo impérios
sobre ossos que fingiam não enxergar.
Vi árvores centenárias tombando
para abrir espaço
a coisas que nasceriam velhas.
Vi criaturas desaparecendo
sem sequer deixarem um nome,
como palavras arrancadas
de um livro antes de serem lidas.
E ainda assim,
o animal continuava correndo.
Sempre correndo.
Como se houvesse algum prêmio escondido
atrás do próximo horizonte.
Como se o ouro pudesse ser comido.
Como se dinheiro pudesse ser respirado.
Como se poder fosse capaz
de interromper a morte.
Então compreendi algo terrível.
A maior tragédia da humanidade
talvez não seja sua crueldade.
Mas sua distração.
Porque enquanto conta moedas,
esquece os pássaros.
Enquanto escolhe lados,
esquece o planeta.
Enquanto disputa poder,
esquece que a água não distingue
reis de mendigos.
E quando finalmente ergue os olhos,
às vezes já é tarde.
A floresta virou lembrança.
O rio virou fotografia.
A verdade virou ruído.
E a vida,
essa raridade cósmica
que atravessou bilhões de anos de escuridão
para florescer por um instante,
continua esperando
que o animal que contava estrelas
aprenda também
a cuidar do jardim.
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Autor:
Amanda S. Moraes (
Offline) - Publicado: 1 de junho de 2026 08:11
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 3

Offline)
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