Amanda S. Moraes

O animal que contava estrelas

 

Sonhei que a Terra me fez uma pergunta.

 

Não uma pergunta de montanhas,

nem de oceanos,

nem dessas que os rios carregam até o mar.

 

Era uma pergunta antiga,

gasta pelo tempo:

 

\"Por quê?\"

 

Por que o animal que aprendeu

a nomear as constelações

não reconhece mais as próprias raízes?

 

Por que aquele que decifrou o fogo,

dividiu o átomo,

fotografou galáxias distantes

e mediu a idade das estrelas

continua incapaz

de compreender o valor de uma floresta viva?

 

Eu não soube responder.

 

Vi cidades brilhando como joias

sobre a pele da noite,

enquanto rios adoeciam em silêncio.

 

Vi homens construindo impérios

sobre ossos que fingiam não enxergar.

 

Vi árvores centenárias tombando

para abrir espaço

a coisas que nasceriam velhas.

 

Vi criaturas desaparecendo

sem sequer deixarem um nome,

como palavras arrancadas

de um livro antes de serem lidas.

 

E ainda assim,

o animal continuava correndo.

 

Sempre correndo.

 

Como se houvesse algum prêmio escondido

atrás do próximo horizonte.

 

Como se o ouro pudesse ser comido.

Como se dinheiro pudesse ser respirado.

Como se poder fosse capaz

de interromper a morte.

 

Então compreendi algo terrível.

 

A maior tragédia da humanidade

talvez não seja sua crueldade.

 

Mas sua distração.

 

Porque enquanto conta moedas,

esquece os pássaros.

 

Enquanto escolhe lados,

esquece o planeta.

 

Enquanto disputa poder,

esquece que a água não distingue

reis de mendigos.

 

E quando finalmente ergue os olhos,

às vezes já é tarde.

 

A floresta virou lembrança.

 

O rio virou fotografia.

 

A verdade virou ruído.

 

E a vida,

essa raridade cósmica

que atravessou bilhões de anos de escuridão

para florescer por um instante,

 

continua esperando

que o animal que contava estrelas

aprenda também

a cuidar do jardim.