Grito que ninguém ouviu
Na rua todo mundo anda
como se o mundo fosse normal
como se não existisse noite
como se não existisse medo
como se o corpo de alguém
não tivesse virado campo de guerra.
Ela voltou pra casa
mas não voltou inteira.
Deixaram a porta aberta
mas fecharam ela por dentro.
E o pior não foi só a dor —
foi o silêncio.
Foi o olhar que duvida,
a boca que pergunta
"tem certeza?"
como se alguém inventasse
um inferno desses
só pra chamar atenção.
Tem grito que não sai pela boca.
Fica preso no osso.
Fica preso na memória.
Fica preso no banho demorado
tentando lavar algo
que não tá na pele.
E a cidade dorme.
E a cidade esquece.
E a cidade segue.
Mas ela lembra.
Lembra quando a noite ficou longa demais,
quando o mundo ficou pequeno demais,
quando ela percebeu
que tem gente
que anda por aí
achando que corpo é coisa
e silêncio é permissão.
Não é.
Nunca foi.
E cada passo agora pesa,
cada esquina pergunta,
cada sombra ameaça.
Mas ainda assim
ela respira.
Ainda assim
ela levanta.
Ainda assim
existe um coração batendo
gritando sem fazer som:
"Eu não sou o que fizeram comigo."
E isso…
isso é resistência.
Porque o crime não foi a roupa,
não foi a hora,
não foi o caminho.
O crime foi alguém
achar
que podia destruir uma alma
e continuar vivendo
como se fosse nada.
Mas não é nada.
Nunca foi.
E enquanto existir dor escondida
atrás de sorriso forçado
vai existir voz
mesmo tremendo
mesmo quebrada
mesmo com medo.
Porque um dia
o grito que ninguém ouviu
vira eco.
E quando vira eco
o mundo é obrigado
a escutar.
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Autor:
Ramon Willame (
Offline) - Publicado: 29 de maio de 2026 15:19
- Comentário do autor sobre o poema: Não se cale denuncie o abuso!
- Categoria: Triste
- Visualizações: 3

Offline)
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