Ramon Willame

Grito que ninguém ouviu

Grito que ninguém ouviu

Na rua todo mundo anda

como se o mundo fosse normal

como se não existisse noite

como se não existisse medo

como se o corpo de alguém

não tivesse virado campo de guerra.

Ela voltou pra casa

mas não voltou inteira.

Deixaram a porta aberta

mas fecharam ela por dentro.

E o pior não foi só a dor —

foi o silêncio.

Foi o olhar que duvida,

a boca que pergunta

\"tem certeza?\"

como se alguém inventasse

um inferno desses

só pra chamar atenção.

Tem grito que não sai pela boca.

Fica preso no osso.

Fica preso na memória.

Fica preso no banho demorado

tentando lavar algo

que não tá na pele.

E a cidade dorme.

E a cidade esquece.

E a cidade segue.

Mas ela lembra.

Lembra quando a noite ficou longa demais,

quando o mundo ficou pequeno demais,

quando ela percebeu

que tem gente

que anda por aí

achando que corpo é coisa

e silêncio é permissão.

Não é.

Nunca foi.

E cada passo agora pesa,

cada esquina pergunta,

cada sombra ameaça.

Mas ainda assim

ela respira.

Ainda assim

ela levanta.

Ainda assim

existe um coração batendo

gritando sem fazer som:

\"Eu não sou o que fizeram comigo.\"

E isso…

isso é resistência.

Porque o crime não foi a roupa,

não foi a hora,

não foi o caminho.

O crime foi alguém

achar

que podia destruir uma alma

e continuar vivendo

como se fosse nada.

Mas não é nada.

Nunca foi.

E enquanto existir dor escondida

atrás de sorriso forçado

vai existir voz

mesmo tremendo

mesmo quebrada

mesmo com medo.

Porque um dia

o grito que ninguém ouviu

vira eco.

E quando vira eco

o mundo é obrigado

a escutar.