Entre livros, paisagens e memórias,
fui costurando versos na bainha do tempo.
Cada estrada abria em meu peito
uma janela voltada para o desconhecido,
e cada passo era uma página
que o destino escrevia sem me consultar.
Foram quatro dias no Rio de Janeiro,
quatro estações dentro de uma mesma viagem.
Antes mesmo da partida,
eu já atravessava caminhos invisíveis,
entre a ansiedade das chegadas
e os sonhos que arrumavam as malas comigo.
A noite prometia partida,
mas o relógio resolveu brincar com a espera.
O ônibus das 23h30 desapareceu dos planos,
e os minutos, teimosos,
alongavam-se como fios intermináveis.
Houve atrasos, assentos duplicados,
vozes inquietas e impaciências espalhadas pelo chão.
Mas toda viagem cobra seu pedágio,
e a estrada também ensina
a linguagem silenciosa da resignação.
Cheguei ao Rio sob um céu de chumbo.
As nuvens vestiam a cidade de melancolia,
e a chuva escrevia cartas líquidas
sobre as janelas e calçadas.
Ainda assim,
havia um sol escondido dentro de mim.
Entre corredores de livros antigos,
ouvi o sussurro de séculos adormecidos.
As estantes pareciam florestas de papel,
e cada obra repousava
como uma estrela aguardando ser descoberta.
Ali compreendi que os livros
não guardam histórias:
guardam espelhos.
Observei pessoas, ruas e horizontes.
E percebi que cada rosto
carrega um universo inteiro.
Somos constelações ambulantes,
galáxias que se cruzam por instantes
sem jamais conhecer todos os seus segredos.
Vi o Cristo abraçando a cidade,
como quem acolhe o mundo entre os braços.
A névoa tentava esconder sua grandeza,
mas até o invisível tinha beleza naquele instante.
As ruas molhadas refletiam luzes,
e os guarda-chuvas floresciam
como jardins improvisados sobre o asfalto.
Então o sol,
cansado de se esconder,
rompeu o cerco das nuvens.
E foi como se alguém abrisse uma cortina dourada
sobre a imensidão.
O mar despertou em prata e ouro,
os morros vestiram claridade,
e a cidade inteira pareceu sorrir.
Cada janela tornou-se um quadro,
cada esquina uma poesia,
cada horizonte uma promessa.
Entre montes que beijam o céu
e águas que abraçam a costa,
aprendi a linguagem da contemplação.
Havia beleza em excesso,
daquelas que transbordam dos olhos
e encontram abrigo na memória.
Caminhei pela praia.
As ondas vinham e voltavam
como pensamentos antigos.
O vento conversava comigo
num idioma que não exige palavras,
e eu respondia apenas com silêncio.
Porque algumas viagens
não nos levam para outros lugares.
Elas nos devolvem a nós mesmos.
Quando chegou a hora de partir,
percebi que minha bagagem havia mudado.
Levei fotografias,
mas trouxe metáforas.
Levei expectativas,
mas trouxe entendimento.
Levei perguntas,
mas trouxe versos.
E se me perguntassem sobre o tempo,
eu responderia que ele foi um poeta.
Foi frio.
Foi atraso.
Foi espera.
Mas também foi encantamento.
Porque entre ônibus perdidos
e horizontes dourados,
aprendi que a beleza prefere os caminhos imperfeitos.
E que os capítulos mais inesquecíveis da vida
raramente são aqueles que planejamos escrever,
mas os que o acaso insiste em nos contar.
-
Autor:
Jr.Silva (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 28 de maio de 2026 21:52
- Comentário do autor sobre o poema: Esta obra nasceu de uma viagem que foi muito além dos quilômetros percorridos. Entre atrasos, expectativas, paisagens e descobertas, encontrei momentos que mereciam ser transformados em palavras. Cada verso guarda um pouco do que vi, senti e aprendi durante esses dias no Rio de Janeiro. Mais do que registrar lugares, este poema busca eternizar sensações: o frio da manhã, a chuva que acompanhou os caminhos, o sol que surgiu para iluminar a cidade e as reflexões que floresceram ao longo da jornada. Que estas linhas inspirem o leitor a enxergar beleza mesmo nos imprevistos, pois muitas vezes são eles que tornam as viagens — e a própria vida — verdadeiramente inesquecíveis.
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 5

Offline)
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