O Som que Ninguém Escuta

victorg59

Sempre gostei de olhar o som. Não de ouvir, só olhar.

As ondas presentes no ar, as vozes que se cruzam, o silêncio que fica quando todo mundo vai embora.

Acho que foi assim que eu aprendi a viver: como um eco numa sala vazia.

 

Na escola, minha voz se perdia.

Falava, ninguém respondia.

Dizia “oi”, e os olhares passavam por mim rapidamente. Me sentia como se nem fosse gente.

Depois de colecionar tantos silêncios, cansei de tentar.

 

Alguns pesavam demais.

Alguns pareciam cortar-me.

No final, não importava, todos doíam.

 

Um dia, me tornei a piada deles. Não sei exatamente quando e nem por que meus amigos se viraram contra mim. 

Só sei que meu nome é motivo de riso. Meu rosto mais ignorado que ruído.

E quanto mais eles riam, mais eu me afastava.

Até que um dia, nem eu conseguia me ouvir.

 

A diretora disse que era “falta de integração", como se eu não tentasse conversar.

Os colegas, “brincadeira”, como se não soubessem como me sinto.

Eu só sorria. O que podia fazer? Ninguém entende quando o silêncio grita.

 

Naquela noite, escrevi tudo que nunca disse.

Palavras curtas, secas, em um pequeno pedaço de papel.

O dobrei, deixei em cima da cama e fechei a janela.

Meu amigo vento, que sussurava todas as noites para mim, não precisava saber do que aconteceria.

 

No dia seguinte, a sala estava diferente.

Mais quieta do que nunca.

Pela primeira vez, todos ficaram em silêncio.

Um silêncio pesado, cheio de ausência.

Um silêncio que, finalmente, me escutou.

  • Autor: victorg59 (Offline Offline)
  • Publicado: 24 de maio de 2026 00:24
  • Comentário do autor sobre o poema: Escrevi esse poema para um concurso de redação ano passado
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 3
  • Usuários favoritos deste poema: moloch
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Comentários1

  • Shmuel

    Um texto caprichosos!

    Excelente dia!



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