Sempre gostei de olhar o som. Não de ouvir, só olhar.
As ondas presentes no ar, as vozes que se cruzam, o silêncio que fica quando todo mundo vai embora.
Acho que foi assim que eu aprendi a viver: como um eco numa sala vazia.
Na escola, minha voz se perdia.
Falava, ninguém respondia.
Dizia “oi”, e os olhares passavam por mim rapidamente. Me sentia como se nem fosse gente.
Depois de colecionar tantos silêncios, cansei de tentar.
Alguns pesavam demais.
Alguns pareciam cortar-me.
No final, não importava, todos doíam.
Um dia, me tornei a piada deles. Não sei exatamente quando e nem por que meus amigos se viraram contra mim.
Só sei que meu nome é motivo de riso. Meu rosto mais ignorado que ruído.
E quanto mais eles riam, mais eu me afastava.
Até que um dia, nem eu conseguia me ouvir.
A diretora disse que era “falta de integração\", como se eu não tentasse conversar.
Os colegas, “brincadeira”, como se não soubessem como me sinto.
Eu só sorria. O que podia fazer? Ninguém entende quando o silêncio grita.
Naquela noite, escrevi tudo que nunca disse.
Palavras curtas, secas, em um pequeno pedaço de papel.
O dobrei, deixei em cima da cama e fechei a janela.
Meu amigo vento, que sussurava todas as noites para mim, não precisava saber do que aconteceria.
No dia seguinte, a sala estava diferente.
Mais quieta do que nunca.
Pela primeira vez, todos ficaram em silêncio.
Um silêncio pesado, cheio de ausência.
Um silêncio que, finalmente, me escutou.