Ponte de Verso e Rio

Sinvaldo de Souza Gino

Ponte de Verso e Rio


Ele era pedra no caminho de Minas,  
Ela era rio doce de Goiás.  
Ele, Drummond, de terno e reticências,  
Ela, Cora, doceira de quintais.  
Se viram velhos, mas se leram jovens:  
Duas almas sem pressa de chegar.  
Ele mandou carta de Itabira,  
Ela respondeu de forno e beira-mar.

“Você é diamante”, ele escreveu,  
“Lapida o Brasil com mão de farinha.”  
Ela riu, com seus oitenta e tantos,  
“Moço, eu só faço verso e rapadurinha.”  
Mas verso dela tinha chão de terra,  
Tinha cheiro de angico e de fogão.  
E verso dele, tão urbano e torto,  
Se aquietou no colo do sertão.

Nunca se viram, e que importa?  
Amizade não precisa de café.  
Ele leu a velha que plantava livros,  
Ela leu o moço que desmancha a fé.  
Dois poetas, duas beiras do mesmo rio,  
Se encontraram sem sair do lugar.  
Cora deu a Drummond mais doçura,  
Drummond deu a Cora um jeito de voar.

Entre pedra e rio, nasceu a ponte.  
E o Brasil inteiro passou por lá.

  • Autor: GINO (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 17 de maio de 2026 15:06
  • Categoria: Amizade
  • Visualizações: 2
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