Ponte de Verso e Rio
Ele era pedra no caminho de Minas,
Ela era rio doce de Goiás.
Ele, Drummond, de terno e reticências,
Ela, Cora, doceira de quintais.
Se viram velhos, mas se leram jovens:
Duas almas sem pressa de chegar.
Ele mandou carta de Itabira,
Ela respondeu de forno e beira-mar.
“Você é diamante”, ele escreveu,
“Lapida o Brasil com mão de farinha.”
Ela riu, com seus oitenta e tantos,
“Moço, eu só faço verso e rapadurinha.”
Mas verso dela tinha chão de terra,
Tinha cheiro de angico e de fogão.
E verso dele, tão urbano e torto,
Se aquietou no colo do sertão.
Nunca se viram, e que importa?
Amizade não precisa de café.
Ele leu a velha que plantava livros,
Ela leu o moço que desmancha a fé.
Dois poetas, duas beiras do mesmo rio,
Se encontraram sem sair do lugar.
Cora deu a Drummond mais doçura,
Drummond deu a Cora um jeito de voar.
Entre pedra e rio, nasceu a ponte.
E o Brasil inteiro passou por lá.