#O Varredor de Madrugadas
Claudio Gia, Macau, RN, 16 de maio de 2026
Quando a noite ainda pesa sobre o asfalto
e os gestores dormem sobre planilhas frias,
lá vai ele — o varredor de madrugadas —
com sua vassoura de fibra e paciência.
Não luz internacional, nem tratado de paz
que a ONU assina sem sair da sala de vidro,
valem mais que o suor desse homem
que limpa o resto do banquete dos outros.
Ele varre migalhas de pão e migalhas de direito,
recolhe latas, restos, promessas vazias,
e o lixo fino das campanhas eleitorais
onde o enganam com um aumento de papel.
Homenageiam-no um dia no calendário,
mas nos outros 364, seu salário é poesia incompleta
e sua jornada, um épico sem herói nos jornais.
A cidade brilha — mas quem lustra os espelhos?
A luz que a UNESCO comemora
é a mesma que ele acende ao sair de casa
antes do sol, enquanto o patrão conta lucros
e o Estado finge que o piso salarial existe.
A convivência em paz que a ONU apregoa
só virá quando o gari sentar-se à mesa
não como serviço, mas como sujeito,
com o calo da mão esquerda feito de direito.
E o médico geriatra que tanto zela do idoso
sabe bem: o varredor que envelhece na rua
tem joelho ralado de tanto se ajoelhar
para catar cacos do sistema.
Doença celíaca? Sim, o mundo é intolerante
ao glúten da riqueza mal dividida.
Mas a maior alergia do capital
é ao cheiro do trabalhador em luta.
16 de maio — não basta flor na farda.
O que se comemora é um começo de face:
a luta de classes varre mais do que vassoura.
E o gari, de pé, é luz, é paz, é diagnóstico.
Porque a cidade limpa de verdade
não é a que não tem lixo —
é a que não tem explorado.
E essa, varredor, ainda está por vir.
-
Autor:
Claudio Gia (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 16 de maio de 2026 19:26
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 1

Offline)
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.