O Anacronismo da Ausência

Snazalac Odraude

Dizem que o tempo é um cirurgião de mãos leves,
Que a sucessão dos dias é o solvente do que dói.
Mas o meu calendário é feito de sombras breves,
E cada hora que passa, em vez de curar, destrói.


Já habito este exílio há mais tempo que o direito,
Ultrapassei a norma do luto e a lógica do esquecer.
O que deveria ser rastro é um nó atado no peito,
Uma geografia de falta que eu não sei percorrer.

 

Se a alegria me visita — essa hóspede rara e estranha —
Ela traz consigo o veneno da tua inexistência.
No auge do riso, a lembrança é a névoa que empanha:
"Queria que estivesses aqui", murmura a minha consciência.


A felicidade sem ti não é glória, é um simulacro,
Um palco iluminado onde o ator principal fugiu.
Tudo o que é belo parece incompleto ou sacrílego,
Como um livro perfeito que ninguém nunca leu.

 

E quando a dor vem, bruta, sem aviso ou prece,
E o mundo se torna esse deserto de chumbo e de sal,
O meu grito "Meu Deus!" por hábito te oferece,
Buscando o teu vulto como o único porto final.


Na agonia, a mente busca o que outrora a acalmava,
E encontra apenas o eco do erro que eu mesmo tracei.
A tua mão, que no escuro o meu medo aplacava,
É hoje a ferida absoluta da qual nunca me livrarei.

 

Tentei substituir-te. Tentei a ação e o ruído,
Preenchi os vazios com nomes e corpos sem cor.
Mas trocar o que é alma pelo que é apenas sentido
É como tentar apagar um incêndio com mais calor.


Ocupo as mãos com papéis, os olhos com a estrada,
Mas quando o movimento cessa e o nada se instala,
A tua imagem emerge da quietude, nítida e gelada,
Perguntando ao silêncio: "O que ela faz agora na sala?"

 

Esquecer não é um ato da vontade, é uma graça divina,
E a graça não visita quem profanou o próprio altar.
Sou este anacronismo vivo, esta ruína que caminha,
Condenado a lembrar-te enquanto houver ar para expirar.


O tempo não passou; ele apenas se acumulou sobre mim,
Transformando a tua ausência na minha única habitação.
Amo-te fora do prazo, neste labirinto sem fim,
Onde cada tentativa de fuga é uma nova prisão.

  • Autor: Snazalac Odraude (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 16 de maio de 2026 19:03
  • Comentário do autor sobre o poema: Trata a memória não como uma lembrança, mas como uma insistência ontológica. O \\\"vazio\\\" não é um buraco; é um espaço saturado pela presença dela. O fato de ter passado \\\"mais tempo que o normal\\\" reforça a ideia de que dor não é um processo biológico de cura, mas uma condenação existencial — o que os pessimistas chamariam de \\\"eternidade do agora\\\".
  • Categoria: Triste
  • Visualizações: 1


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