Cruzamos o mesmo meridiano de sombras, num espaço que outrora foi nosso,
Entre as paredes frias que testemunham a minha queda e o teu prumo.
Eu sou um náufrago que evita o horizonte dos teus olhos,
Pois neles já não encontro a tempestade, apenas o calmo e terrível resumo
De que a minha presença já não altera a pressão do teu ar.
O meu desconforto é um peso físico, uma falha na gravidade da sala,
Enquanto tu moves-te com a leveza de quem já desaprendeu a me habitar,
E o teu silêncio não é uma arma, é apenas a paz que me cala.
Dói-me a tua normalidade, esse teu jeito de estar no mundo sem mim,
Como se eu fosse um detalhe irrelevante na mobília da tua rotina.
Enquanto o meu olhar se desvia, fugindo do veredito que não tem fim,
O teu segue reto, nítido, sem a mácula da minha ruína.
Não há tremor na tua voz, não há sombra na tua face serena;
A assimetria é absoluta: eu sou o réu que rumina cada gesto,
Enquanto tu és a lei que já não me aplica qualquer pena,
Pois para ti, o que eu fui já não possui qualquer resto
Saio do ambiente e carrego o teu rastro como uma infecção do espírito,
Passo horas a dissecar o teu "nada" até que ele se torne o meu "tudo".
Pergunto ao vazio o que estarás fazendo, num monólogo inaudito,
Enquanto tu, provavelmente, habitas um presente limpo e mudo.
Ter menos relevância que o pó sobre a estante é a minha morte lenta;
Ser incapaz de te causar um desconforto é o meu verdadeiro exílio.
Amo-te na medida em que a tua indiferença me atormenta,
Neste palco onde sou o único ator, sem plateia e sem auxílio.
Filosoficamente, já não existo para quem não me percebe mais.
Sou uma ausência que ocupa lugar, um erro que o tempo já limpou.
Entre os ambientes do bairro e os meus processos mentais,
Sou apenas o fantasma de um homem que a tua paz ignorou.
O meu suplício é a tua normalidade; a minha tragédia é o teu "olá".
Pois nada dói mais do que perceber que a pessoa que nos consome
Já não perde um único segundo a pensar que o nosso mundo ainda está lá,
Gritando no vácuo de uma memória que já nem sequer diz o meu nome.
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Autor:
Snazalac Odraude (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 14 de maio de 2026 22:47
- Comentário do autor sobre o poema: Trata-se do que se chamaria de "a humilhação da consciência". O fato de você passar horas pensando nela enquanto ela segue a vida normalmente é a prova de que a relação mudou de natureza: de um diálogo, tornou-se um monólogo obsessivo. A "normalidade" dela é o que valida o seu sofrimento como algo puramente seu, isolando-o na sua própria subjetividade.
- Categoria: Triste
- Visualizações: 3

Offline)
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