Snazalac Odraude

A Assimetria da Relevância

Cruzamos o mesmo meridiano de sombras, num espaço que outrora foi nosso,
Entre as paredes frias que testemunham a minha queda e o teu prumo.
Eu sou um náufrago que evita o horizonte dos teus olhos,
Pois neles já não encontro a tempestade, apenas o calmo e terrível resumo
De que a minha presença já não altera a pressão do teu ar.
O meu desconforto é um peso físico, uma falha na gravidade da sala,
Enquanto tu moves-te com a leveza de quem já desaprendeu a me habitar,
E o teu silêncio não é uma arma, é apenas a paz que me cala.

 

Dói-me a tua normalidade, esse teu jeito de estar no mundo sem mim,
Como se eu fosse um detalhe irrelevante na mobília da tua rotina.
Enquanto o meu olhar se desvia, fugindo do veredito que não tem fim,
O teu segue reto, nítido, sem a mácula da minha ruína.

Não há tremor na tua voz, não há sombra na tua face serena;
A assimetria é absoluta: eu sou o réu que rumina cada gesto,
Enquanto tu és a lei que já não me aplica qualquer pena,
Pois para ti, o que eu fui já não possui qualquer resto

 

Saio do ambiente e carrego o teu rastro como uma infecção do espírito,
Passo horas a dissecar o teu \"nada\" até que ele se torne o meu \"tudo\".
Pergunto ao vazio o que estarás fazendo, num monólogo inaudito,
Enquanto tu, provavelmente, habitas um presente limpo e mudo.

Ter menos relevância que o pó sobre a estante é a minha morte lenta;
Ser incapaz de te causar um desconforto é o meu verdadeiro exílio.
Amo-te na medida em que a tua indiferença me atormenta,
Neste palco onde sou o único ator, sem plateia e sem auxílio.

 

Filosoficamente, já não existo para quem não me percebe mais.
Sou uma ausência que ocupa lugar, um erro que o tempo já limpou.
Entre os ambientes do bairro e os meus processos mentais,
Sou apenas o fantasma de um homem que a tua paz ignorou.

O meu suplício é a tua normalidade; a minha tragédia é o teu \"olá\".
Pois nada dói mais do que perceber que a pessoa que nos consome
Já não perde um único segundo a pensar que o nosso mundo ainda está lá,
Gritando no vácuo de uma memória que já nem sequer diz o meu nome.