LIÇÕES

G. Mirabeau

Ao ver-te pura e nua

Recolher-te em mim,

Sinto-te ingênua e criança.

 

Então como quiseras abrir o peito

Se tantas feras e o mundo estreito,

(De tão falsa amplidão!),

Acolhem-te e aquecem-te

Em sua goela ofídia,

Em suas entranhas quentes e fatais?!...

 

Então como quiseras lançar-te ao alto

Se as belas raízes de mognos seculares

Mais ao solo prendem,

Mais limites impõe?...

 

Então como quiseras lançar-te ao mar das verdadeiras liberdades

Se qualquer vibração,

Anseio ou pensamento,

Transforma em maremoto

O disposto, certo, satisfeito?...

 

Então como quiseras ir em frente ao tempo?...

Pois só o momento

E antigos pensamentos

Se permite ao tempo

Neste tempo agora...

 

Como buscas em mim

A força de mil batalhas

Que travei com os ventos

Se, tola, não sabes:

Que em mim contenho

Mais de mil mortalhas,

Mais de mil desonras...?

 

 

Pois aprende logo:

Ao inimigo deves dar o mel

Que quando ingerido

Este o fel prefira.

 

Imbricada ao corpo,

Deves ser a mola

Mais inaparente e mais fundamental

E solta-te...

 

Fecha então teu peito!

Volta pro teu leito

E já te transforma

Num camaleão!

  • Autor: G. Mirabeau (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 14 de maio de 2026 14:15
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 9
  • Usuários favoritos deste poema: Vilma Oliveira
Comentários +

Comentários2

  • Shmuel

    Que bonita poesia! Uma exaltação a musa.

    Abraços

    • G. Mirabeau

      Grato por apreciar a poesia. Um abraço.

    • Vilma Oliveira

      Boa noite poeta! Um monólogo de desilusão e autoproteção, onde a voz poética alerta uma figura ingênua sobre a hostilidade do mundo. Tom: Predomina um realismo cético e amargo, construído por meio de uma sequência de questionamentos retóricos implacáveis (Então como quiseras...). Forte oposição entre a vulnerabilidade inicial (pura e nua, criança) e a crueza do ambiente (goela ofídia, mortalhas, desonras). Defende o pragmatismo e o disfarce como ferramentas de sobrevivência social (dar o mel, transforma num camaleão). Versos livres e sem métrica rígida, priorizando o fluxo dramático, o conselho ríspido e o choque de realidade. Parabéns por seu poema! Meu abraço fraterno.

      • G. Mirabeau

        Uma análise perfeita, como sempre, do poema. Agradeço o comentário e sinto que você faz uma leitura cristalina de minha alma ao escrevê-lo. Abraços.



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