Ao ver-te pura e nua
Recolher-te em mim,
Sinto-te ingênua e criança.
Então como quiseras abrir o peito
Se tantas feras e o mundo estreito,
(De tão falsa amplidão!),
Acolhem-te e aquecem-te
Em sua goela ofídia,
Em suas entranhas quentes e fatais?!...
Então como quiseras lançar-te ao alto
Se as belas raízes de mognos seculares
Mais ao solo prendem,
Mais limites impõe?...
Então como quiseras lançar-te ao mar das verdadeiras liberdades
Se qualquer vibração,
Anseio ou pensamento,
Transforma em maremoto
O disposto, certo, satisfeito?...
Então como quiseras ir em frente ao tempo?...
Pois só o momento
E antigos pensamentos
Se permite ao tempo
Neste tempo agora...
Como buscas em mim
A força de mil batalhas
Que travei com os ventos
Se, tola, não sabes:
Que em mim contenho
Mais de mil mortalhas,
Mais de mil desonras...?
Pois aprende logo:
Ao inimigo deves dar o mel
Que quando ingerido
Este o fel prefira.
Imbricada ao corpo,
Deves ser a mola
Mais inaparente e mais fundamental
E solta-te...
Fecha então teu peito!
Volta pro teu leito
E já te transforma
Num camaleão!
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Autor:
G. Mirabeau (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 14 de maio de 2026 14:15
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 9
- Usuários favoritos deste poema: Vilma Oliveira

Offline)
Comentários2
Que bonita poesia! Uma exaltação a musa.
Abraços
Grato por apreciar a poesia. Um abraço.
Boa noite poeta! Um monólogo de desilusão e autoproteção, onde a voz poética alerta uma figura ingênua sobre a hostilidade do mundo. Tom: Predomina um realismo cético e amargo, construído por meio de uma sequência de questionamentos retóricos implacáveis (Então como quiseras...). Forte oposição entre a vulnerabilidade inicial (pura e nua, criança) e a crueza do ambiente (goela ofídia, mortalhas, desonras). Defende o pragmatismo e o disfarce como ferramentas de sobrevivência social (dar o mel, transforma num camaleão). Versos livres e sem métrica rígida, priorizando o fluxo dramático, o conselho ríspido e o choque de realidade. Parabéns por seu poema! Meu abraço fraterno.
Uma análise perfeita, como sempre, do poema. Agradeço o comentário e sinto que você faz uma leitura cristalina de minha alma ao escrevê-lo. Abraços.
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