Há amores que chegam como o vento do deserto:
ninguém os vê nascer,
mas dobram cedros, levantam mares
e fazem tremer os templos interiores.
Assim veio ela —
não como promessa,
mas como sentença escrita antes da aurora,
quando o barro do homem ainda dormia
nas mãos insondáveis do Eterno.
E eu,
que aprendera com os profetas
a vigiar o coração acima de todas as coisas,
vi-me caindo como Davi diante do cântico,
como Jacó lutando a noite inteira
contra um anjo feito de desejo e vertigem.
Porque há paixões que não pedem licença:
acendem-se.
Ergui muralhas de silêncio,
jejuns de memória,
rios de razão correndo sobre a febre do sangue.
Mas o amor, quando decide permanecer,
transforma toda fuga em círculo.
E compreendi o que já sabiam
os velhos poetas da tragédia:
o homem não escolhe inteiramente aquilo que o atravessa.
Há destinos escritos em tinta invisível,
como se os deuses antigos
e o Deus único das Escrituras
partilhassem, em segredo,
a mesma linguagem do abismo.
Então ouvi, dentro de mim,
a voz do antigo Cântico:
“Forte como a morte é o amor.”
E temi.
Não a perdição do corpo,
mas a do espírito —
esse naufrágio doce
em que a alma abandona seus altares
para ajoelhar-se diante de outro ser humano
como quem toca o impossível.
E eu já não sei
se desejo ser salvo
ou consumido.
Pois amar profundamente
é aceitar a espada dividindo o peito
entre espírito e carne,
entre virtude e vertigem,
entre o céu que chama para o alto
e a terra que implora permanência.
Platão diria
que toda paixão é saudade do divino.
Salomão responderia
com perfumes, vinhas e beijos.
E ambos teriam razão.
Seria inútil pedir ao mar
que abandonasse a lua.
Aceito esta paixão
como os antigos aceitavam os oráculos:
com temor, reverência
e uma secreta alegria.
Se ela me elevar, bendito seja.
Se me destruir, bendito seja também.
Pois algumas almas
não vieram ao mundo para evitar o fogo —
vieram para compreender, dentro dele,
o mistério.
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Autor:
Sezar Kosta (
Offline) - Publicado: 14 de maio de 2026 10:17
- Comentário do autor sobre o poema: Há encontros que ultrapassam qualquer tentativa de controle e chegam à vida como algo já escrito antes mesmo da nossa vontade. Tentei proteger a mente, ocupar o tempo e convencer o coração de que certas paixões passam, mas algumas permanecem como marés: silenciosas, inevitáveis e profundas. Amar alguém assim é viver dividido entre o medo de se perder e o desejo estranho de se entregar por inteiro, como quem percebe que há sentimentos capazes de tocar aquilo que existe de mais humano e mais sagrado dentro de nós. No fim, entendi que certas conexões não aparecem para trazer conforto — aparecem para transformar tudo o que acreditávamos ser.
- Categoria: Amor
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- Em coleções: Meus Poemas de Amor, Poesias Líricas.

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