Sezar Kosta

O SAGRADO MISTÉRIO DO AMOR

Há amores que chegam como o vento do deserto:

ninguém os vê nascer,

mas dobram cedros, levantam mares

e fazem tremer os templos interiores.

 

Assim veio ela —

não como promessa,

mas como sentença escrita antes da aurora,

quando o barro do homem ainda dormia

nas mãos insondáveis do Eterno.

 

E eu,

que aprendera com os profetas

a vigiar o coração acima de todas as coisas,

vi-me caindo como Davi diante do cântico,

como Jacó lutando a noite inteira

contra um anjo feito de desejo e vertigem.

 

Porque há paixões que não pedem licença:

acendem-se.

 

Ergui muralhas de silêncio,

jejuns de memória,

rios de razão correndo sobre a febre do sangue.

Mas o amor, quando decide permanecer,

transforma toda fuga em círculo.

 

E compreendi o que já sabiam

os velhos poetas da tragédia:

o homem não escolhe inteiramente aquilo que o atravessa.

Há destinos escritos em tinta invisível,

como se os deuses antigos

e o Deus único das Escrituras

partilhassem, em segredo,

a mesma linguagem do abismo.

 

Então ouvi, dentro de mim,

a voz do antigo Cântico:

 

“Forte como a morte é o amor.”

 

E temi.

 

Não a perdição do corpo,

mas a do espírito —

esse naufrágio doce

em que a alma abandona seus altares

para ajoelhar-se diante de outro ser humano

como quem toca o impossível.

 

E eu já não sei

se desejo ser salvo

ou consumido.

 

Pois amar profundamente

é aceitar a espada dividindo o peito

entre espírito e carne,

entre virtude e vertigem,

entre o céu que chama para o alto

e a terra que implora permanência.

 

Platão diria

que toda paixão é saudade do divino.

Salomão responderia

com perfumes, vinhas e beijos.

 

E ambos teriam razão.

 

Seria inútil pedir ao mar

que abandonasse a lua.

 

Aceito esta paixão

como os antigos aceitavam os oráculos:

com temor, reverência

e uma secreta alegria.

 

Se ela me elevar, bendito seja.

Se me destruir, bendito seja também.

 

Pois algumas almas

não vieram ao mundo para evitar o fogo —

vieram para compreender, dentro dele,

o mistério.