A Geografia e a Chuva

Alexandre Magnos

Toda chuva, quando vem, é inevitável.

Procuramos logo um teto, um abrigo,

ou abrimos um guarda-chuva e esperamos que ela passe.

 

Quando se anuncia, o dia se fecha;

às vezes vem acompanhada de trovões e relâmpagos —

e realmente pode assustar.

 

Correr e nos esconder é sempre o primeiro impulso.

E assim, tantas vezes tentamos nos proteger dela,

sem perceber o sentido poético que carrega:

toda chuva tem um fim —

e o sol sempre volta, com um novo brilho.

 

A vida também é assim.

Podemos tentar nos esconder,

ou apenas nos preparar para as mudanças.

Mas quase nunca estamos prontos.

Não há controle sobre a chuva —

nem sobre onde ela vai tocar a terra.

De certo é que estaremos molhados quando ela passar.

 

Sempre que chovia, minha doce mãe nos arrastava para brincar.

Geralmente corríamos atrás de uma bola toda remendada,

e as caras feias logo se enchiam de um brilho

que só o prazer de estarmos juntos podia explicar.

 

Há momentos em que a vida nos pede apenas isso:

aceitar e apreciar a chuva.

Pois não há glória em chegar ao fim da vida —

mas em viver cada pequeno instante, mesmo que molhados.

 

A vida é uma longa caminhada,

onde há beleza em ser surpreendido.

E aceitar a geografia da estrada é, em si,

uma forma de libertação.

Pois há caminhos que só a chuva revela.

 

Então, quando o tempo começar a fechar, não tema:

é só a vida se fazendo presente —

e lembre-se: o sol sempre voltará a brilhar.

  • Autor: Alexandre Magnos (Offline Offline)
  • Publicado: 13 de maio de 2026 17:01
  • Comentário do autor sobre o poema: Esse é um dos meus poemas de que mais gosto, porque ele fala sobre algo que existe além da nossa vontade.\\\\r\\\\nSobre aquilo que ninguém consegue controlar: as perdas, as mudanças, o medo, a saudade e o próprio fluxo da vida.\\\\r\\\\n\\\\r\\\\nO que mais me toca nele é o contraste entre o impulso de fugir da chuva e a lembrança da infância, quando a chuva virava brincadeira.\\\\r\\\\nComo se, em algum momento da vida, tivéssemos desaprendido a atravessar os dias difíceis com leveza.\\\\r\\\\n\\\\r\\\\nNão existe domínio sobre os caminhos da vida — apenas a escolha de como atravessá-los.\\\\r\\\\nE talvez seja exatamente isso que o poema tente dizer.\\\\r\\\\n\\\\r\\\\nO verso “há caminhos que só a chuva revela” resume muito da essência do texto. Porque certas sensibilidades, amadurecimentos e reencontros interiores só aparecem depois das tempestades.\\\\r\\\\n\\\\r\\\\nNo fundo, o poema não fala apenas sobre esperança.\\\\r\\\\nEle fala sobre aprender a existir mesmo durante a chuva.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 4


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.