As sombras deitam-se agora como cães fiéis à porta,
E o tempo, esse carrasco lento, esvazia-me os pulmões.
Não te peço o retorno, pois a terra da confiança está morta,
E não se semeia vida sobre as cinzas de velhas traições.
Mas, enquanto realizas os ritos simples da tua casa,
Enquanto o café fumega e o dia lá fora se faz rotina,
Deixa que um átomo de mim, uma sombra quase rasa,
Habite o teu coração como uma cicatriz que não se extermina.
Guarda-me ali, por um instante, como um erro necessário,
Como o verso amargo de um livro que não queres reler.
Peço-te perdão, não pelo perdão, esse conceito arbitrário,
Mas pelo peso ontológico de tudo o que eu não soube ser.
É anti-natural, eu sei, pedir abrigo em quem feri,
Mas o amor, nesta fase terminal, é uma inércia sem clemência.
Sou um cadáver adiado que ainda respira o que perdi,
Condenado a buscar na tua memória a minha única existência.
Se o inverno chegar e o frio te lembrar o meu silêncio,
Não sorrias por mim; apenas permite que eu lá esteja.
Um fantasma discreto, um eco do que foi imenso,
Aguardando que o tempo, em sua entropia, nos proteja.
Guarda-me no teu coração por um breve intervalo,
Pois fora dele, eu sou apenas o nada que eu mesmo escolhi.
Onde houve luz, hoje há o abismo em que me instalo,
Amando-te ainda mais agora, no exílio em que me perdi.
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Autor:
Snazalac Odraude (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 11 de maio de 2026 15:55
- Comentário do autor sobre o poema: Aqui, o perdão não é a cura, mas o reconhecimento de uma dívida que nunca será paga. O eu-lírico admite que, fora da memória dela, ele não possui substância real. Ele é um \\\"membro fantasma\\\" da vida que outrora compartilharam.
- Categoria: Triste
- Visualizações: 1

Offline)
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