Snazalac Odraude

O Hóspede da Penumbra

As sombras deitam-se agora como cães fiéis à porta,
E o tempo, esse carrasco lento, esvazia-me os pulmões.
Não te peço o retorno, pois a terra da confiança está morta,
E não se semeia vida sobre as cinzas de velhas traições.

 

Mas, enquanto realizas os ritos simples da tua casa,
Enquanto o café fumega e o dia lá fora se faz rotina,
Deixa que um átomo de mim, uma sombra quase rasa,
Habite o teu coração como uma cicatriz que não se extermina.

 

Guarda-me ali, por um instante, como um erro necessário,
Como o verso amargo de um livro que não queres reler.
Peço-te perdão, não pelo perdão, esse conceito arbitrário,
Mas pelo peso ontológico de tudo o que eu não soube ser.

 

É anti-natural, eu sei, pedir abrigo em quem feri,
Mas o amor, nesta fase terminal, é uma inércia sem clemência.
Sou um cadáver adiado que ainda respira o que perdi,
Condenado a buscar na tua memória a minha única existência.

 

Se o inverno chegar e o frio te lembrar o meu silêncio,
Não sorrias por mim; apenas permite que eu lá esteja.
Um fantasma discreto, um eco do que foi imenso,
Aguardando que o tempo, em sua entropia, nos proteja.

 

Guarda-me no teu coração por um breve intervalo,
Pois fora dele, eu sou apenas o nada que eu mesmo escolhi.
Onde houve luz, hoje há o abismo em que me instalo,
Amando-te ainda mais agora, no exílio em que me perdi.