A Matemática do Que Nunca Dá Certo

Maicon Rigon

Se há um balde a um metro
e uma bolinha amassada na minha mão,
não é física, é destino.
A gravidade me conhece pelo nome.

Se existem mil bilhetes
e novecentos e noventa e nove premiados,
não preciso conferir números:
já sei que o silêncio vai me escolher.

Minha vida tem estatística própria.
Quando algo dá certo para todos,
eu viro exceção.
Quando algo pode falhar,
eu já estou no campo de provas.

Não é azar de detalhe
é estilo de existência.

Já perdi o ônibus parado na porta.
Já peguei fila que andava,
e a minha congelou.
Já sentei na melhor posição possível
para ver o pior ângulo do mundo.

No show, sempre o telão com defeito.
Se há quatro telas,
a que pisca é a minha.
Se há quatro cadeiras ruins,
a pior parece ter GPS.

Já falhei com pessoas que amei
sem a menor intenção de falhar.

Não por descuido,
nem por desinteresse,
mas por esse jeito torto do destino
que transforma boa vontade
em desencontro,
e esforço
em atraso.

Às vezes eu chego inteiro,
mas a vida chega antes
e muda o lugar das coisas.

Já queimei o chuveiro
no dia mais frio do ano.
Como se o inverno dissesse:
"ah, é você!”

Um amigo perguntou
se não tenho medo de avião cair,
de doença grave,
dessas tragédias que viram manchete.

Respondi com a calma de quem conhece o próprio roteiro:

Com essa sorte?
Todos os aviões em que eu entrar vão pousar em segurança.
E certamente vou chegar aos 90.
E o pior:
com a lucidez intacta, nítida demais,
vendo tudo, entendendo tudo,
sentindo cada detalhe do mundo
até o último segundo
como se o destino, por ironia,
me condenasse não ao fim,
mas à permanência.

  • Autor: Maicon Rigon (Offline Offline)
  • Publicado: 11 de maio de 2026 07:22
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2


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