Se há um balde a um metro
e uma bolinha amassada na minha mão,
não é física, é destino.
A gravidade me conhece pelo nome.
Se existem mil bilhetes
e novecentos e noventa e nove premiados,
não preciso conferir números:
já sei que o silêncio vai me escolher.
Minha vida tem estatística própria.
Quando algo dá certo para todos,
eu viro exceção.
Quando algo pode falhar,
eu já estou no campo de provas.
Não é azar de detalhe
é estilo de existência.
Já perdi o ônibus parado na porta.
Já peguei fila que andava,
e a minha congelou.
Já sentei na melhor posição possível
para ver o pior ângulo do mundo.
No show, sempre o telão com defeito.
Se há quatro telas,
a que pisca é a minha.
Se há quatro cadeiras ruins,
a pior parece ter GPS.
Já falhei com pessoas que amei
sem a menor intenção de falhar.
Não por descuido,
nem por desinteresse,
mas por esse jeito torto do destino
que transforma boa vontade
em desencontro,
e esforço
em atraso.
Às vezes eu chego inteiro,
mas a vida chega antes
e muda o lugar das coisas.
Já queimei o chuveiro
no dia mais frio do ano.
Como se o inverno dissesse:
\"ah, é você!”
Um amigo perguntou
se não tenho medo de avião cair,
de doença grave,
dessas tragédias que viram manchete.
Respondi com a calma de quem conhece o próprio roteiro:
Com essa sorte?
Todos os aviões em que eu entrar vão pousar em segurança.
E certamente vou chegar aos 90.
E o pior:
com a lucidez intacta, nítida demais,
vendo tudo, entendendo tudo,
sentindo cada detalhe do mundo
até o último segundo
como se o destino, por ironia,
me condenasse não ao fim,
mas à permanência.