O átomo da minha vontade apodreceu em pleno ar.
Não há mais carne, apenas a arquitetura do meu próprio escárnio,
Um necrotério de memórias onde o relógio, esse verme de metal,
Mastiga os segundos de um tempo que eu mesmo assassinei.
O teto desce como uma lápide de mármore frio.
Meus demônios não têm chifres; têm a forma de ângulos retos,
De silêncios cortantes, de ausências que ocupam lugar na sala.
Eles bebem a minha bile e me devolvem a visão dela,
Uma projeção de luz num cinema de cinzas.
Eu sou o arquiteto da minha própria asfixia.
Troquei o altar por um punhado de sal e sombra.
O ato foi um corte seco no tecido da existência,
Uma mancha de tinta negra no lençol que era neve.
Agora, a vigília é um chicote de nervos expostos.
Dormir é descer aos infernos de uma ternura simulada,
Onde o perfume dela é um ácido que me desfaz a pele.
E o despertar... ah, o despertar é o verdadeiro cadafalso.
É o retorno à carcaça, ao deserto de mim,
Onde cada batida do coração é o som de uma porta fechando.
Sou um prisioneiro que ama as suas próprias correntes,
Pois elas são a única coisa que ainda me prendem à realidade.
O sol é um insulto. O dia é uma ferida aberta.
E eu, o verme que a habita, celebro a minha própria ruína
Neste templo de escuridão que eu, e somente eu, ergui.
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Autor:
Snazalac Odraude (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 10 de maio de 2026 11:32
- Comentário do autor sobre o poema: Aqui, a dor não é narrada, ela é uma anatomia do vazio.
- Categoria: Triste
- Visualizações: 10
- Usuários favoritos deste poema: Ultracrepidário, Sinvaldo de Souza Gino, Naiumi Rodrigues

Offline)
Comentários1
Que poema mais louco, top demais! Parabéns, profundo! Um realismo que marca cadências psicológicas, vai além da memória, fase do rememorar no presente aquilo de foi, poeta agora me fez lembrar de Machado de Assis, o poeta psicológico ele apresenta uma memória posterior, ou seja ele oferece aos vermes a sua dedicatória no ato de putrefação do seu corpo, há um diálogo depois de morto, ou seja enquanto está sendo consumido em decomposição corpórea ele dedica todo ato. Loucura demais do poeta! Memórias Póstumas de Brás Cuba.
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