O átomo da minha vontade apodreceu em pleno ar.
Não há mais carne, apenas a arquitetura do meu próprio escárnio,
Um necrotério de memórias onde o relógio, esse verme de metal,
Mastiga os segundos de um tempo que eu mesmo assassinei.
O teto desce como uma lápide de mármore frio.
Meus demônios não têm chifres; têm a forma de ângulos retos,
De silêncios cortantes, de ausências que ocupam lugar na sala.
Eles bebem a minha bile e me devolvem a visão dela,
Uma projeção de luz num cinema de cinzas.
Eu sou o arquiteto da minha própria asfixia.
Troquei o altar por um punhado de sal e sombra.
O ato foi um corte seco no tecido da existência,
Uma mancha de tinta negra no lençol que era neve.
Agora, a vigília é um chicote de nervos expostos.
Dormir é descer aos infernos de uma ternura simulada,
Onde o perfume dela é um ácido que me desfaz a pele.
E o despertar... ah, o despertar é o verdadeiro cadafalso.
É o retorno à carcaça, ao deserto de mim,
Onde cada batida do coração é o som de uma porta fechando.
Sou um prisioneiro que ama as suas próprias correntes,
Pois elas são a única coisa que ainda me prendem à realidade.
O sol é um insulto. O dia é uma ferida aberta.
E eu, o verme que a habita, celebro a minha própria ruína
Neste templo de escuridão que eu, e somente eu, ergui.