GIRASSÓIS

Charles Araújo

GIRASSÓIS

 

Girassóis ao vento, quase uma prece.  

Abrem as pétalas na direção do dia

como quem confia na luz.  

Têm essa maneira de parecerem fortes  

enquanto escondem nas pétalas que ainda não nasceram memórias dos dias sem sol.  

 

Memórias dos gesto  

das mãos que colhem sem amor

Dos passos que pisam e ferem ,  

a pressa de quem arranca pétalas  

como se a beleza não sangrasse.  

 

Pois sempre tem quem atravesse jardins  

desfazendo o que não plantou.  

E saem rindo como se o verão  

pudesse encobrir vestígios.  

Mas nada se perde.  

Fica no pólen.  

Fica na seiva.  

Fica na raiz  

que ninguém viu doer.  

 

A vida não esquece  

o que foi feito ao que crescia em paz.  

Há um retorno nas coisas:  

um vazio no meio da tarde,  

uma lembrança que chega  

quando não há defesa.  

 

E então a consciência,  

como jardim depois da chuva,  

se abre por dentro não por vingança.  

Mas pelo amadurecimento  

de tudo que cresce até doer.  

 

Toda crueldade deixá no mundo  

uma sombra, crescendo rente ao chão.  

ninguém fere um caule 

sem levar consigo  

terra sob as unhas.  

E ninguém toca uma flor  

sem descobrir que o solo lembra.  

 

Porque há raízes que continuam  

muito depois da flor cair.  

E um dia, sem aviso,  

o campo inteiro se inclina  

na direção contrária da luz.  

Então todos veem:  

até os girassói

s aprendem  

o rosto de quem os feriu.  

 

 

  • Autor: C.araujo (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 8 de maio de 2026 01:14
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2


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