GIRASSÓIS
Girassóis ao vento, quase uma prece.
Abrem as pétalas na direção do dia
como quem confia na luz.
Têm essa maneira de parecerem fortes
enquanto escondem nas pétalas que ainda não nasceram memórias dos dias sem sol.
Memórias dos gesto
das mãos que colhem sem amor
Dos passos que pisam e ferem ,
a pressa de quem arranca pétalas
como se a beleza não sangrasse.
Pois sempre tem quem atravesse jardins
desfazendo o que não plantou.
E saem rindo como se o verão
pudesse encobrir vestígios.
Mas nada se perde.
Fica no pólen.
Fica na seiva.
Fica na raiz
que ninguém viu doer.
A vida não esquece
o que foi feito ao que crescia em paz.
Há um retorno nas coisas:
um vazio no meio da tarde,
uma lembrança que chega
quando não há defesa.
E então a consciência,
como jardim depois da chuva,
se abre por dentro não por vingança.
Mas pelo amadurecimento
de tudo que cresce até doer.
Toda crueldade deixá no mundo
uma sombra, crescendo rente ao chão.
ninguém fere um caule
sem levar consigo
terra sob as unhas.
E ninguém toca uma flor
sem descobrir que o solo lembra.
Porque há raízes que continuam
muito depois da flor cair.
E um dia, sem aviso,
o campo inteiro se inclina
na direção contrária da luz.
Então todos veem:
até os girassói
s aprendem
o rosto de quem os feriu.