Sentado à mesa onde o café arrefece,
Sou o que resta de um homem que se teve.
A casa é um corpo que já não padece,
E o silêncio é um peso que ninguém descreve.
Abri as portas — não para que ela entrasse,
Mas para os monstros que em mim cultivei.
Deixei que a sombra o rosto me roubasse,
E o que era luz, por vício, eu profanei.
Expulsei-me do único lar que habitei.
Sou hoje o herdeiro de cada meu erro,
O rei de um reino que eu mesmo incendiei.
Não há um dia em que o sol me não acuse,
Nem uma noite em que o sonho me dê paz.
É inútil que o fado agora me escuse:
Fui eu que fiz o abismo em que jaz
A memória dela, o rastro do perfume,
A mão que eu tive e que não soube amar.
O meu remorso é um pálido lume
Que ilumina o que eu não posso recuperar.
Dói-me a consciência de ser quem eu sou,
Este estranho que em meu espelho se vê.
Ela partiu, e o que em mim ficou
É o nada absoluto... por minha mercê.
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Autor:
Snazalac Odraude (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 7 de maio de 2026 16:22
- Comentário do autor sobre o poema: Reflete o estado de alguém que não busca desculpas no destino, mas que reconhece a própria mão na construção da sua ruína.
- Categoria: Triste
- Visualizações: 3
- Usuários favoritos deste poema: Vilma Oliveira

Offline)
Comentários1
Boa noite poeta! Seu poema é um exercício visceral de autoflagelo e lucidez. Onde não há esperança ou ciclos naturais, mas sim a aceitação amarga da culpa. O autor utiliza imagens de ruína — o café frio, o reino incendiado, o abismo — para descrever um homem que se tornou estrangeiro de si mesmo após destruir o que amava. É uma reflexão sombria sobre como o livre-arbítrio, quando usado para o erro, constrói a própria prisão do remorso. Meus parabéns por seu poema! Abraço poético.
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