Snazalac Odraude

O Inventário do Vazio

Sentado à mesa onde o café arrefece,

Sou o que resta de um homem que se teve.

A casa é um corpo que já não padece,

E o silêncio é um peso que ninguém descreve.

 

Abri as portas — não para que ela entrasse,

Mas para os monstros que em mim cultivei.

Deixei que a sombra o rosto me roubasse,

E o que era luz, por vício, eu profanei.

 

Expulsei-me do único lar que habitei.

Sou hoje o herdeiro de cada meu erro,

O rei de um reino que eu mesmo incendiei.

 

Não há um dia em que o sol me não acuse,

Nem uma noite em que o sonho me dê paz.

É inútil que o fado agora me escuse:

Fui eu que fiz o abismo em que jaz

 

A memória dela, o rastro do perfume,

A mão que eu tive e que não soube amar.

O meu remorso é um pálido lume

Que ilumina o que eu não posso recuperar.

 

Dói-me a consciência de ser quem eu sou,

Este estranho que em meu espelho se vê.

Ela partiu, e o que em mim ficou

É o nada absoluto... por minha mercê.