Onde outrora rugia a loucura e a turbulência em caos, hoje repousa um certo veredito.
Não há mais o verso postiço, nem a métrica vazia de quem
tentou emoldurar o nada em molduras de ouro falso.
O enigma desbotou, enigma o qual sempre foi minha dedicação a esfinge, antes imponente,
revelou apenas barro, uma estátua (construção de responsabilidade minha apenas) e pedestal de minha importância insossa
exposta ao sol da própria lucidez.
É a ressaca do meu ego que se alimentava de mistério e névoa,
um duelo contra um espectro que, ao ser iluminado,
confessou a sua própria finitude em mudez absoluta.
Mas o silêncio que agora me habita não é ausência de som,
mas a exuberância da minha própria presença completa.
Eu, que decifrava labirintos de palavras ocas,
encontro agora o desconforto bendito da estabilidade.
A paz, esse horizonte plano e vasto,
pode parecer um deserto e tedioso para quem se viciou no abismo,
mas é, em verdade, o solo fértil onde o real cria raízes.
Onde havia o estrépito de uma montanha-russa emocional,
surge agora o murmúrio sagrado do cotidiano,
o brilho do céu que transmuta em ciclos precisos,
o afeto que não exige tradução,
e a solidez de um caminho que se constrói com as mãos livres.
O silêncio dele não é mistério, é a rendição do seu próprio verso e versão. É o muro intransponível que protege a minha morada,
o preço justo e libertador da minha própria alforria.
Não escuto mais o vazio, escuto a vida que pulsa fora da clausura.
Pois se o barulho findou, é porque a sanidade finalmente
reclamou o seu trono, e a finitude, mestre severa,
entregou-me o remédio que cura a alma,
a liberdade de não precisar mais ser lida por quem nunca soube te escrever.
É a finitude que faz de cada segundo o maior remédio..
Falta pouco então, para assim, seguir na menor importância
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Autor:
Ana Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 7 de maio de 2026 14:04
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 5
- Usuários favoritos deste poema: Vilma Oliveira

Offline)
Comentários1
Boa noite poetisa! Este é um poema de emancipação intelectual e emocional. A autora descreve o fim de uma idolatria — a percepção de que o mistério do outro era, na verdade, uma construção do próprio ego (molduras de ouro falso). A passagem do caos da montanha-russa emocional para a estabilidade não é vista como tédio, mas como lucidez. O desfecho é libertador: a cura vem de aceitar a finitude e entender que não é preciso ser decifrado por quem não tem competência para nos entender. Parabéns pelo poema! Abraço poético.
Olá, boa noite! Obrigada, Vilma.
É exatamente isso! É uma construção de lutas diárias do pensamento... Mas só complementando em um contexto geral, refere-se ao fim de uma idolatria cuja responsabilidade era e foi minha, por ter erguido alguém ao altar. O "enigma" era o silêncio, as falas e ações nas entrelinhas e aquela busca incessante por decifrar uma estátua que eu mesma coloquei no pedestal, do qual brilhavam meus olhos na esperança de não ser o que eu realmente vi e consertar o que não me cabia.
O meu ego, acaba sofrendo a ressaca do mistério e da névoa, de não ter conseguindo entender, compreender e de não permanecer, mas que ainda insisto em querer voltar pra isso todos os dias. Porém, a dose de realidade do cotidiano, a dose diaria do real desmorona a narrativa camuflada que criei para habitar. Dói porque é o fim, e o choque da lucidez pode ser muito mais cruel. Mas, embora a verdade doa, ela é o que me resgata do imaginário e me devolve à vida real, das ações...
Espero que tenha gostado! Abraço!
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