A Maldição de Camões

Sinvaldo de Souza Gino

A Maldição de Camões

 

Fui eu que cantei o mar quando era vento,  

E o mar me respondeu com naufrágio.  

Dei à pátria um épico de sangue e sal,  

E a pátria me deu um olho a menos e um hospital.  

 

Chamam de maldição, eu chamo de ofício:  

Ver demais custa a vista,  

Amar demais custa o peito,  

Escrever demais custa o resto.  

 

Perdi a Lu em Lisboa,  

Perdi a China no Oriente,  

Perdi a rima em Moçambique,  

Só não perdi a língua —  

Essa ficou presa nos dentes,  

Roendo soneto até virar osso.  

 

Voltei do Índico com um livro na mão  

E a outra mão estendida.  

Os reis me leram, os pobres me ouviram,  

E os dois me deixaram sem ceia.  

 

Dizem que morri de peste,  

Mas foi de Portugal que eu morri:  

De escrever grande em terra pequena,  

De ter nação na cabeça  

E não ter teto na velhice.  

 

Se é maldição, que seja:  

Que todo poeta herde de mim  

A glória de não caber no seu tempo,  

E o azar de caber num verso  

Que só o futuro entende.  

 

Enterraram-me sem nome,  

Desenterraram-me com estátua.  

Assim é a paga de quem canta:  

Primeiro a fome,  

Depois o mármore.  

 

Maldição não é morrer pobre.  

É viver lúcido.

  • Autor: GINO (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 6 de maio de 2026 12:54
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 4
  • Usuários favoritos deste poema: Vilma Oliveira
Comentários +

Comentários2

  • Shmuel

    Uma bela homenagem para este escritor cuja história é fascinante.

    Abraços

  • Vilma Oliveira

    Boa noite poeta! O poema destaca o contraste brutal entre o que o poeta deu (um império em versos, sangue e sal) e o que recebeu (um olho a menos, fome e desabrigo). A pátria é retratada como uma entidade que consome o artista. A escrita não é vista como um dom leve, mas como uma erosão física e emocional. Ver, amar e escrever demais resultam em perder a vista, o peito e o resto da vida. A crítica mordaz ao ciclo: Primeiro a fome, / Depois o mármore, resume a hipocrisia das nações que deixam seus artistas morrerem na miséria para depois os transformarem em estátuas intocáveis. O desfecho é brilhante ao afirmar que o verdadeiro fardo não é a pobreza, mas a lucidez. Camões morreu de Portugal (na pequenez do país perante a grandeza da sua obra) e por não caber no seu tempo. É um texto sobre a solidão intelectual e a glória póstuma como uma recompensa tardia e inútil para quem teve nação na cabeça e não teve teto na velhice. Parabéns por seu belo poema! Meu abraço poético.



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