A Maldição de Camões
Fui eu que cantei o mar quando era vento,
E o mar me respondeu com naufrágio.
Dei à pátria um épico de sangue e sal,
E a pátria me deu um olho a menos e um hospital.
Chamam de maldição, eu chamo de ofício:
Ver demais custa a vista,
Amar demais custa o peito,
Escrever demais custa o resto.
Perdi a Lu em Lisboa,
Perdi a China no Oriente,
Perdi a rima em Moçambique,
Só não perdi a língua —
Essa ficou presa nos dentes,
Roendo soneto até virar osso.
Voltei do Índico com um livro na mão
E a outra mão estendida.
Os reis me leram, os pobres me ouviram,
E os dois me deixaram sem ceia.
Dizem que morri de peste,
Mas foi de Portugal que eu morri:
De escrever grande em terra pequena,
De ter nação na cabeça
E não ter teto na velhice.
Se é maldição, que seja:
Que todo poeta herde de mim
A glória de não caber no seu tempo,
E o azar de caber num verso
Que só o futuro entende.
Enterraram-me sem nome,
Desenterraram-me com estátua.
Assim é a paga de quem canta:
Primeiro a fome,
Depois o mármore.
Maldição não é morrer pobre.
É viver lúcido.