Sinvaldo de Souza Gino

A Maldição de Camões

A Maldição de Camões

 

Fui eu que cantei o mar quando era vento,  

E o mar me respondeu com naufrágio.  

Dei à pátria um épico de sangue e sal,  

E a pátria me deu um olho a menos e um hospital.  

 

Chamam de maldição, eu chamo de ofício:  

Ver demais custa a vista,  

Amar demais custa o peito,  

Escrever demais custa o resto.  

 

Perdi a Lu em Lisboa,  

Perdi a China no Oriente,  

Perdi a rima em Moçambique,  

Só não perdi a língua —  

Essa ficou presa nos dentes,  

Roendo soneto até virar osso.  

 

Voltei do Índico com um livro na mão  

E a outra mão estendida.  

Os reis me leram, os pobres me ouviram,  

E os dois me deixaram sem ceia.  

 

Dizem que morri de peste,  

Mas foi de Portugal que eu morri:  

De escrever grande em terra pequena,  

De ter nação na cabeça  

E não ter teto na velhice.  

 

Se é maldição, que seja:  

Que todo poeta herde de mim  

A glória de não caber no seu tempo,  

E o azar de caber num verso  

Que só o futuro entende.  

 

Enterraram-me sem nome,  

Desenterraram-me com estátua.  

Assim é a paga de quem canta:  

Primeiro a fome,  

Depois o mármore.  

 

Maldição não é morrer pobre.  

É viver lúcido.