Diante das nuances enrubrecidas do arrebol,
no compasso de um suspiro,
vi esvair-se todo o meu cinismo.
Sob a face repetida de um entardecer,
em súbito encanto,
capturei-me, atônita,
ao sentir lançar-se sobre mim
o que outrora notava —
mas jamais percebia.
Como um cego que volta a ver,
em um atropelar de instantes,
os céus cavalgaram sobre mim.
As cores arrebataram minha alma.
As formas, as curvas,
a cintilância das nuvens
abraçadas pelo dourado do sol
pincelavam, sublimes,
um sfumato perfeito no céu.
Entre o cantarolar do coral
que entremeava o âmbar,
e o riso dos amarelos radiantes
que acanhavam a completude dos azuis,
eu me vi em minha escala real.
O que poderia ser eu,
comparada à ausência de linhas rígidas,
de qualquer nota ou tom dissonante
naquele céu?
Pela primeira vez, vi como quem sente.
E, estarrecida, entorpecida
pelo deslumbre que há pouco me arrebatara,
lembrei-me
de que era algo
que, desde o meu primeiro pensamento, conheço,
mas que nunca antes
eu havia, de fato, visto.
Mariana Guimarães Herrmann
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Autor:
Mariana Herrmann (
Offline) - Publicado: 6 de maio de 2026 02:17
- Comentário do autor sobre o poema: Este poema descreve a experiência de perceber a própria alma ao ter a consciência de notar coisas que passam por nós a vida toda embaladas no cotidiano. Um simples entardecer é comum, entretanto se olhar com atenção o comum pode ser extraordinário. Desde menina tenho esses episódios de profunda contemplação ao me pegar observando os céus. Sempre me pego pensando que o céu só é algo natural para nós, porque o vemos desde que nascemos. Porque se fazemos um exercício de pensamento tirando esse fator de normalidade ele se torna extremamente impressionante. As formas, a cor, a paisagem que se forma nos céus são um movimento aleatório, orgânico da natureza que não tem nenhuma pretensão de ser belo. E mesmo assim o céu consegue ser assustadoramente repleto de beleza. Como se falasse sobre aquilo aquilo que o criou. E foi daí partiu daí a inspiração pra este poema. Espero que apreciem.
- Categoria: Surrealista
- Visualizações: 7
- Usuários favoritos deste poema: Gilberto C. S. Jr.

Offline)
Comentários1
" Vi como quem sente..." Gostei! Parabéns, um belo poema.
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