Diante das nuances enrubrecidas do arrebol,
no compasso de um suspiro,
vi esvair-se todo o meu cinismo.
Sob a face repetida de um entardecer,
em súbito encanto,
capturei-me, atônita,
ao sentir lançar-se sobre mim
o que outrora notava —
mas jamais percebia.
Como um cego que volta a ver,
em um atropelar de instantes,
os céus cavalgaram sobre mim.
As cores arrebataram minha alma.
As formas, as curvas,
a cintilância das nuvens
abraçadas pelo dourado do sol
pincelavam, sublimes,
um sfumato perfeito no céu.
Entre o cantarolar do coral
que entremeava o âmbar,
e o riso dos amarelos radiantes
que acanhavam a completude dos azuis,
eu me vi em minha escala real.
O que poderia ser eu,
comparada à ausência de linhas rígidas,
de qualquer nota ou tom dissonante
naquele céu?
Pela primeira vez, vi como quem sente.
E, estarrecida, entorpecida
pelo deslumbre que há pouco me arrebatara,
lembrei-me
de que era algo
que, desde o meu primeiro pensamento, conheço,
mas que nunca antes
eu havia, de fato, visto.
Mariana Guimarães Herrmann