Avesso do tudo

Anna Gonçalves

O que resta do bardo se lhe roubam o pranto?  

Um odre seco, uma corda muda, um deserto de cetim sem fim.  

O melancólico sem a sua melancolia é um corpo sem estrutura e contorno,  

Pois é no breu da sanidade e saudade que ele esculpe o seu famoso "sim".  

A alma que não se banha no cinza desconhece o brilho da aurora, 

quem nunca habitou o inverno, jamais saberá o que o sol comemora.

 

A engrenagem do mundo, esse relógio de carne e aço,  

ruiria em silêncio se o sentir perdesse o compasso.  

Uma sociedade sem a dose da emoção é colmeia de vidro, 

transparente, perfeita, mas sem o mel do que foi vivido.  

É o medo que ergue muros, mas é o amor que abre os portões,  

e no choque dos opostos nascem as revoluções.

 

Vejam o astro rei, soberbo em sua persistência,

atrás das cortinas de chumbo, ele não perde a essência.  

A chuva é o alicerce, o trovão é o rugido do impacto da espera,  

mas o Sol só é divino porque a tempestade o tempera.  

Assim é o Bem, essa luz que só fere a retina  

porque o Mal, à espreita, lhe dá a margem e a linha.

 

A vida, bailarina exausta, dança na ponta de um cutelo,  

onde a Morte é o aplauso final, o inevitável selo.  

Sem o fim, o agora seria um eterno e pálido tédio,  

é a finitude que faz de cada segundo o maior remédio.

 

E o louco? O louco... mestre de uma lógica extremamente sagrada.  

Sem o delírio, ele seria apenas mais um náufrago na calçada.  

A loucura é o cristal por onde ele enxerga o que o são ignora,  

pois quem chama de desvario o voo, é quem nunca pôs os pés para fora.

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 5 de maio de 2026 20:56
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 4


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