O que resta do bardo se lhe roubam o pranto?
Um odre seco, uma corda muda, um deserto de cetim sem fim.
O melancólico sem a sua melancolia é um corpo sem estrutura e contorno,
Pois é no breu da sanidade e saudade que ele esculpe o seu famoso \"sim\".
A alma que não se banha no cinza desconhece o brilho da aurora,
quem nunca habitou o inverno, jamais saberá o que o sol comemora.
A engrenagem do mundo, esse relógio de carne e aço,
ruiria em silêncio se o sentir perdesse o compasso.
Uma sociedade sem a dose da emoção é colmeia de vidro,
transparente, perfeita, mas sem o mel do que foi vivido.
É o medo que ergue muros, mas é o amor que abre os portões,
e no choque dos opostos nascem as revoluções.
Vejam o astro rei, soberbo em sua persistência,
atrás das cortinas de chumbo, ele não perde a essência.
A chuva é o alicerce, o trovão é o rugido do impacto da espera,
mas o Sol só é divino porque a tempestade o tempera.
Assim é o Bem, essa luz que só fere a retina
porque o Mal, à espreita, lhe dá a margem e a linha.
A vida, bailarina exausta, dança na ponta de um cutelo,
onde a Morte é o aplauso final, o inevitável selo.
Sem o fim, o agora seria um eterno e pálido tédio,
é a finitude que faz de cada segundo o maior remédio.
E o louco? O louco... mestre de uma lógica extremamente sagrada.
Sem o delírio, ele seria apenas mais um náufrago na calçada.
A loucura é o cristal por onde ele enxerga o que o são ignora,
pois quem chama de desvario o voo, é quem nunca pôs os pés para fora.