O Castigo de Sísifo
Na curva do monte, a pedra geme,
Nos braços de Sísifo, o peso não treme.
Sobe o rei, condenado, em peleja,
A rocha escorrega, mas ele não deixa:
Punho cerrado, destino que teima,
E o alto do morro, que nunca se achega.
Zeus decretou: “Trabalha sem glória,
Empurra teu fardo, apaga a memória!”
Mas Sísifo ri, com lábio em ruína,
Pois fez do castigo a própria rotina.
Se a pedra desce, a alma se inclina,
E volta a subir, sem temer a neblina.
O suor lhe batiza a testa cansada,
O sol lhe golpeia a carne marcada.
A cada tropeço, renasce a jornada:
Degrau após degrau, a dor é calada.
Porque o inferno, na mente forjada,
Vira caminho — e não encruzilhada.
Não há perdão na sentença do Olimpo,
Nem pausa no giro do tempo que rima.
Mas há um segundo, no topo, tão ínfimo,
Em que o homem é mais que o próprio enigma.
Ele olha o abismo, respira o seu íntimo,
E sabe: a derrota é só voz que se estima.
Rola a pedra, despenca o seu mundo;
Sísifo desce, sereno, profundo.
Não chora o castigo, não teme o segundo,
Pois fez do absurdo o seu chão fecundo.
E se o eterno é um círculo imundo,
Ele caminha — inteiro, jocundo.
-
Autor:
GINO (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 5 de maio de 2026 06:24
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 2

Offline)
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.