Sinvaldo de Souza Gino

O Castigo de Sísifo

O Castigo de Sísifo

 

Na curva do monte, a pedra geme,  

Nos braços de Sísifo, o peso não treme.  

Sobe o rei, condenado, em peleja,  

A rocha escorrega, mas ele não deixa:  

Punho cerrado, destino que teima,  

E o alto do morro, que nunca se achega.

 

Zeus decretou: “Trabalha sem glória,  

Empurra teu fardo, apaga a memória!”  

Mas Sísifo ri, com lábio em ruína,  

Pois fez do castigo a própria rotina.  

Se a pedra desce, a alma se inclina,  

E volta a subir, sem temer a neblina.

 

O suor lhe batiza a testa cansada,  

O sol lhe golpeia a carne marcada.  

A cada tropeço, renasce a jornada:  

Degrau após degrau, a dor é calada.  

Porque o inferno, na mente forjada,  

Vira caminho — e não encruzilhada.

 

Não há perdão na sentença do Olimpo,  

Nem pausa no giro do tempo que rima.  

Mas há um segundo, no topo, tão ínfimo,  

Em que o homem é mais que o próprio enigma.  

Ele olha o abismo, respira o seu íntimo,  

E sabe: a derrota é só voz que se estima.

 

Rola a pedra, despenca o seu mundo;  

Sísifo desce, sereno, profundo.  

Não chora o castigo, não teme o segundo,  

Pois fez do absurdo o seu chão fecundo.  

E se o eterno é um círculo imundo,  

Ele caminha — inteiro, jocundo.