Flor de Lótus

Versos Discretos

Sob o clarão de âmbar que a penumbra desenha,
Tu te ergues, soberana, em dorso de marfim,
Dando as costas ao mundo, enquanto o desejo empenha
A coreografia de um balé que não tem fim.

Tua cintura, em arco, oscila e se agita,
Num ritmo de lundu, de sístole e cadência;
A geometria de tua carne, em espasmos, dita
A lei da gravidade e da pura efervescência.

No vale de tua espinha, onde a luz se demora,
A flor de lótus tatuada parece florescer;
Pétalas de tinta em tua pele de aurora,
Que vibram no compasso do meu enlouquecer.

Ato II - O Encontro das Águas
Como um abismo de seda, cálido e profundo,
Tua vulva, em pranto de néctar e mormaço,
Sorve a haste rígida, o pilar do meu mundo,
Engolindo o fogo num úmido abraço.

É um encaixe sagrado, de atrito e de glória,
Onde o músculo cede à pressão do metal;
Tu cavalgas o tempo, escrevendo a história
De um naufrágio bendito em maré visceral.

Ato III - O Canto da Vertigem
E quando o ápice se anuncia no horizonte,
Tua voz se desprende, num transe de areia;
Gemidos de lúcia, que brotam da fonte,
Como o canto letal de uma antiga sereia.

É uma prece profana, um delírio cantado,
Que me arrasta às rochas de tua possessão;
Enquanto o corpo, por fim, cai rendido e suado,
Nos braços da mais doce e cruel perdição.

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Comentários2

  • Vilma Oliveira

    Boa noite poeta! O autor utiliza a estrutura de Atos para conferir uma progressão dramática ao desejo. O ritmo é marcado por referências musicais e corporais, como o lundu (dança de matriz africana conhecida pela sensualidade) e a sístole (ritmo cardíaco), sugerindo que o prazer é uma dança tanto biológica quanto cultural. Há uma constante fusão entre o corpo físico e imagens elevadas: Imagens Nobres: Marfim, flor de lótus, seda e encaixe sagrado. Imagens Profanas: Pranto de néctar, maré visceral e prece profana. Essa dualidade transforma a entrega carnal em um evento espiritual, onde o naufrágio (a perda do controle) é considerado bendito. O poema utiliza a natureza para descrever a fisiologia erótica. O termo: O Encontro das Águas, metaforiza a lubrificação e a união de fluidos como um fenômeno geográfico, enquanto o fogo e o mormaço representam o calor do atrito e da paixão. A mulher é retratada como soberana, detentora do ritmo e da voz que arrasta o eu lírico. A referência à antiga sereia no Ato III reforça o poder de sedução fatal e inevitável, onde o homem não é apenas um participante, mas alguém capturado pela doce e cruel perdição do prazer. Saudações poéticas.

  • MAYK52

    Belíssimo, intenso, e sensual poema que muito gostei.

    Parabéns pela inspiração!

    Abraço!



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