Versos Discretos

Flor de Lótus

Sob o clarão de âmbar que a penumbra desenha,
Tu te ergues, soberana, em dorso de marfim,
Dando as costas ao mundo, enquanto o desejo empenha
A coreografia de um balé que não tem fim.

Tua cintura, em arco, oscila e se agita,
Num ritmo de lundu, de sístole e cadência;
A geometria de tua carne, em espasmos, dita
A lei da gravidade e da pura efervescência.

No vale de tua espinha, onde a luz se demora,
A flor de lótus tatuada parece florescer;
Pétalas de tinta em tua pele de aurora,
Que vibram no compasso do meu enlouquecer.

Ato II - O Encontro das Águas
Como um abismo de seda, cálido e profundo,
Tua vulva, em pranto de néctar e mormaço,
Sorve a haste rígida, o pilar do meu mundo,
Engolindo o fogo num úmido abraço.

É um encaixe sagrado, de atrito e de glória,
Onde o músculo cede à pressão do metal;
Tu cavalgas o tempo, escrevendo a história
De um naufrágio bendito em maré visceral.

Ato III - O Canto da Vertigem
E quando o ápice se anuncia no horizonte,
Tua voz se desprende, num transe de areia;
Gemidos de lúcia, que brotam da fonte,
Como o canto letal de uma antiga sereia.

É uma prece profana, um delírio cantado,
Que me arrasta às rochas de tua possessão;
Enquanto o corpo, por fim, cai rendido e suado,
Nos braços da mais doce e cruel perdição.