ELÊUSIS

G. Mirabeau

Vago, absorto,

Sinto caminharem as almas

Entre as negras pedras,

E a escuridão espalma

As tortas mãos

Por entre o azul das pegas

Esvoaçantes entre os matizes

Invernais de Vega.

E logo as almas, loucas de desejos,

Entre estas mãos e outras mais navegam...

 

Tolo, ignoto,

Só a paixão carrego...

Sem o conforto do luar trafego

No mar escuro

De espumas mortas;

E o cintilar da noite

É tudo que importa,

Penetra frestas

Do rubor da morte

E as noites estas

E outras dão suporte

Aos quase dias,

Ilusões de Sol

Das carruagens e escunas mágicas,

Estonteantes, fulgurantes réplicas

De seculares páginas

Em Elêusis mortas...

 

Ávido, pálido,

Resignado à escuridão do medo,

A solidão, a mim, só eu concedo

E do quietismo me desprendo

E cedo

A exalar – enfim... - desassossego...

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Comentários1

  • Vilma Oliveira

    Boa noite poeta! Este poema é carregado de simbolismo e hermetismo, evocando uma atmosfera de sonho (ou pesadelo) místico. Mergulha na metafísica e no pessimismo clássico. Aura Mitológica: A menção a Elêusis (referência aos mistérios da Grécia Antiga) e à estrela Vega transporta o sofrimento do autor para uma escala cósmica e histórica. O eu lírico navega em um mar escuro de espumas mortas, onde a única luz que resta é um cintilar que penetra o rubor da morte. É uma beleza sombria e decadente. O fechamento com o termo desassossego e a frase a solidão, a mim, só eu concedo revela um espírito que abraça a própria melancolia como uma forma de destino inevitável. É uma obra densa, que lembra a atmosfera de autores como Cruz e Sousa ou Fernando Pessoa (Bernardo Soares). Meu abraço poético.



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