CALIPSO DE OGIGIA 

Charles Araújo

CALIPSO DE OGIGIA 

 

Seduziste-me 

com a doçura própria

das coisas que sabem o mal que fazem.

E não o negaste:em teus olhos já havia

a promessa e o veredito.

 

Nas tuas calmarias de ninfa

repousei imprudente 

tomando por abrigo

o que era abismo em repouso.

E quando me envolveste,

não foram braços 

foi destino.

 

Fui descendo. Sem luta digna,

sem razão que me valesse 

apenas o querer,esse vício lúcido

que se veste de escolha.

Morri...duas vezes morri:

primeiro, ao tocar-te;

depois, ao não querer escapar.

 

Nas tuas águas 

tépidas, traiçoeiras 

perdi o nome das margens.

Eras superfície clara,

quase inocente ao olhar 

mas no fundo guardavas

a arte de reter. Debati-me, é verdade 

mas não por salvação:

há um instante tardio

em que o corpo finge lutar

apenas para honrar o instinto.

Porque a alma, essa,

já havia consentido.

 

Amei.

E nisso houve excesso.

Amei como quem assina

com a própria mão

a sentença que o há de cumprir.

Desaprendi a nadar 

não por fraqueza,

mas por fidelidade ao desejo.

Pois no momento exato

em que te quis inteira,

abandonei toda margem possível.

 

Morri e nisso fui cúmplice.

Morri no ato 

em que te aceitei sem reserva.

E o que restou 

não foi vida, nem sequer ruína:

foi apenas o corpo,

lento e o

bediente,

cumprindo com dignidade

a pena de ter amado.

 

  • Autor: C.araujo (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 29 de abril de 2026 01:12
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1


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