CALIPSO DE OGIGIA
Seduziste-me
com a doçura própria
das coisas que sabem o mal que fazem.
E não o negaste:em teus olhos já havia
a promessa e o veredito.
Nas tuas calmarias de ninfa
repousei imprudente
tomando por abrigo
o que era abismo em repouso.
E quando me envolveste,
não foram braços
foi destino.
Fui descendo. Sem luta digna,
sem razão que me valesse
apenas o querer,esse vício lúcido
que se veste de escolha.
Morri...duas vezes morri:
primeiro, ao tocar-te;
depois, ao não querer escapar.
Nas tuas águas
tépidas, traiçoeiras
perdi o nome das margens.
Eras superfície clara,
quase inocente ao olhar
mas no fundo guardavas
a arte de reter. Debati-me, é verdade
mas não por salvação:
há um instante tardio
em que o corpo finge lutar
apenas para honrar o instinto.
Porque a alma, essa,
já havia consentido.
Amei.
E nisso houve excesso.
Amei como quem assina
com a própria mão
a sentença que o há de cumprir.
Desaprendi a nadar
não por fraqueza,
mas por fidelidade ao desejo.
Pois no momento exato
em que te quis inteira,
abandonei toda margem possível.
Morri e nisso fui cúmplice.
Morri no ato
em que te aceitei sem reserva.
E o que restou
não foi vida, nem sequer ruína:
foi apenas o corpo,
lento e o
bediente,
cumprindo com dignidade
a pena de ter amado.