#Calendário das Memórias
Autor: Claudio Gia
Macau, RN – 27 de abril de 2026
No vigésimo sétimo dia do quarto mês,
a mão que esfrega o chão e dobra o pano
ergue-se em nome: empregada doméstica.
Não é favor, é luta de um século inteiro.
No vigésimo sétimo dia do décimo mês,
a pele mais golpeada por agulhas e omissões
clama por saúde que não seja retalho:
população negra em movimento, corpo é território.
Mil novecentos e quarenta – concreto e arquibancada,
inauguram em São Paulo o Estádio Municipal.
Vinte mil gritos caberiam depois,
mas o nome Paulo Machado de Carvalho
virou placa enquanto o povo vira saudade.
Mil novecentos e quarenta e um: Atenas cai
sob bota alemã, e a história não tremeu.
No mesmo ano, Mussolini, de galã fracassado,
tenta fugir de soldado alemão –
mas é preso em Dongo, com o disfarce roto
e o fascismo exposto como a roupa suja.
E antes, muito antes, Simeão,
segundo chefe da comunidade de Jerusalém,
bispo e mártir do primeiro século.
Não teve estádio, não teve data na folha,
mas teve a fé que não se rende ao algoz.
Hoje, em Macau, sobre o sal do Rio Grande do Norte,
eu reúno esses fragmentos como quem junta cacos:
o trabalho doméstico, a saúde negra,
o concreto da vitória, a guerra, o fascista em fuga,
o santo silenciado.
Não há ordem, há urgência.
Cada vigésimo sétimo é uma cicatriz que canta.
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Autor:
Claudio Gia (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 27 de abril de 2026 11:21
- Categoria: Não classificado
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