Trégua e destreza

Anna Gonçalves

A memória é a casa onde mora o que fujo.

                       [Como mimetizar ao outro]

                        [Perder noites em claro e ficando com aspecto insosso]

E cada porta que fecho para não ver,

é uma janela que abro sem querer

para o quarto onde o espectro me seduz.

 

Quem foge a galope, sedentário,

prende-se mais depressa ao seu grilhão,

a estrada foge, mas o chão é o chão,

e o passo é um círculo solitário.

 

O que não resolve, não se desfaz,

é raiz dormente, é pedra no chão.

O que finjo morto, vivo me refaz,

cada ignorar é nova contrafeição.

 

Porque para esquecer, primeiro lembro.

E o vácuo que fabrico em derredor

é só o momento exato do que tembro,

um círculo de ausência com odor.

 

E nisto vou, separando cascalho

do que eu fiz e do que me fez assim,

como quem conta as perdas num serialho

sabendo que o contar não chega ao fim.

 

Mas não se alcança paz por artifício

nem por destreza o nó se desatou.

A trégua vem, não de qualquer ofício,

mas quando o próprio espectro finalmente entendeu e se libertou.

 

E nesse dia, a casa fica em calma

não porque mandei vento ou pus trinco na alma,

mas  o que doía, enfim, parou de ser visita,

e o que era ausência, passa a ser só limite.

 

Comparação que enfim, comigo digo,

o esforço de lembrar é o mesmo abrigo

que constrói a prisão de quem o evita.

E a paz só vem quando a alma, já bonita

de tanto se perder, se encontra e se limita.

 

Já não exijo, nem imploro compreensão  

pra dores minhas, pra dores quem são.  

Pois quando a paz enfim chega, sem permissão,  

tira o peso da mente e volta os pés no chão.

 

Também renúncio 

                            [novamente]

a exigência de sermos entendidos  

nas dores que carrego, nas que  levas.  

A paz, quando vem, cala os ruídos  

E liberta a mente das correntes e das trevas.

 

Não quero mais que entenda minhas cores  

Nem decifrem as cicatrizes.  

Que a paz chegue e apague os dissabores,  

Aliviando a mente dos ossos do ofícios infelizes.

 

 

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 27 de abril de 2026 00:29
  • Categoria: Espiritual
  • Visualizações: 2


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