A memória é a casa onde mora o que fujo.
[Como mimetizar ao outro]
[Perder noites em claro e ficando com aspecto insosso]
E cada porta que fecho para não ver,
é uma janela que abro sem querer
para o quarto onde o espectro me seduz.
Quem foge a galope, sedentário,
prende-se mais depressa ao seu grilhão,
a estrada foge, mas o chão é o chão,
e o passo é um círculo solitário.
O que não resolve, não se desfaz,
é raiz dormente, é pedra no chão.
O que finjo morto, vivo me refaz,
cada ignorar é nova contrafeição.
Porque para esquecer, primeiro lembro.
E o vácuo que fabrico em derredor
é só o momento exato do que tembro,
um círculo de ausência com odor.
E nisto vou, separando cascalho
do que eu fiz e do que me fez assim,
como quem conta as perdas num serialho
sabendo que o contar não chega ao fim.
Mas não se alcança paz por artifício
nem por destreza o nó se desatou.
A trégua vem, não de qualquer ofício,
mas quando o próprio espectro finalmente entendeu e se libertou.
E nesse dia, a casa fica em calma
não porque mandei vento ou pus trinco na alma,
mas o que doía, enfim, parou de ser visita,
e o que era ausência, passa a ser só limite.
Comparação que enfim, comigo digo,
o esforço de lembrar é o mesmo abrigo
que constrói a prisão de quem o evita.
E a paz só vem quando a alma, já bonita
de tanto se perder, se encontra e se limita.
Já não exijo, nem imploro compreensão
pra dores minhas, pra dores quem são.
Pois quando a paz enfim chega, sem permissão,
tira o peso da mente e volta os pés no chão.
Também renúncio
[novamente]
a exigência de sermos entendidos
nas dores que carrego, nas que levas.
A paz, quando vem, cala os ruídos
E liberta a mente das correntes e das trevas.
Não quero mais que entenda minhas cores
Nem decifrem as cicatrizes.
Que a paz chegue e apague os dissabores,
Aliviando a mente dos ossos do ofícios infelizes.