Fuga

Ultracrepidário

As almas vão deitando
Em camas macias;
E vão deixando os lençóis
Entrarem por entre os ossos;
Deixando o tecido do estofado
Substituir a carne.

E, de grão em grão,
As almas enclinam-se
Ao conforto das casas
E comutam ar
Por poeira.

Mas, escaparei.
Escaparei dessa besta
Que definha os nervos
Enquanto acaricia minha cabeça
E massageia meus pés.

E, então, fugirei.
Fugirei os ermos que gelam a espinha;
Às matas densas que maltratam o corpo;
Às secas terras que envermelham a pele;
Ou às belas damas que, em estocada, acertam o peito.

Vou agarrar minha alma.
Puxá-la-ei desse tenro limbo,
E a lançarei ao Sol,
Mesmo que a queime por inteiro.

  • Autor: Ultracrepidário (Offline Offline)
  • Publicado: 25 de abril de 2026 23:01
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2
Comentários +

Comentários1

  • C4torze

    Entendi que o poema critica nossa deliberada ignorância da realidade, a "fuga" para a mentira, que é doce, mas que destrói por dentro.



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